Decisões difíceis

Hoje em dia, milhares de famílias convivem com a difícil decisão de colocar alguém que ama em um lar para idoso ou pior, para quem não tem recursos financeiros, um asilo.  O momento de optar por internar um pai ou mãe, um dos mais estressantes pelo qual algúem pode passar na vida.  

Colocar esse ser sob os cuidados de estranhos é como dizer "desisto"?  Ou, "Não posso cuidar de você"?...  Não para mim! É como dizer: "vou te colocar num lugar onde você possa se comunicar, se relacionar, ter assistência profissional, enquanto eu cuido das minhas coisas. Daí, a cada reencontro nosso, a cada visita, mais amor estaria contido, mais carinho, mais qualidade no relacionamento..." e "não te abandono nunca, estarei vigiando, protegendo de perto."

O papa Francisco disse " quem não cuida de seus idosos... não tem futuro!"... "Quantas vezes nos descartamos das pessoas mais velhas com atitudes que são semelhantes a uma forma de eutanásia oculta..."   

Ter Alzheimer é uma condição deplorável, pouco compreendida e cruel...  e cuidar de meu pai, nessa condição, envolve pensar no melhor para ele. Não me descartarei dele. Apenas encontrei quem me ajude a cuidar de sua doença, sem sacrificar meu psicológico. Sou a responsável por ele. 

Cuidar de meu pai sozinha, dia após dia, me deixa impaciente, nervosa, triste, assustada... Dia após dia ver o avanço do fim  daquele que me deu a vida... ver ele sumindo dentro de si próprio... também é uma forma de morrer aos poucos.  Morre uma parte minha ligada a ele e o que poderia ser minha própria vida é abafado, adiado, deixado de lado.  

Seu José tem 82 anos e é jovial, vaidoso, alegre, coquete... mas também é confuso, esquecido, carente de atenção, até para ir ao banheiro onde consegue mexer na latrina e colocar o que faz no cesto...  pede para ajudar e o deixo levar uma sacola de compras do carro para a cozinha, que, é claro, ele não sabe onde fica e para no meio do caminho...  Lê a bíblia e canta seus hinos...  depois invoca com barulhos da rua, da tv... esconde coisas como chaves, controles da tv, seus chinelos, a roupa que usará no banho, o creme dental vai para o bolso assim como guardanapos... não vire as costas ou algo acontecerá e sempre... não foi ele! Esquece onde fica o banheiro, a cozinha... não sabe pegar água. Engraçado é que sabe esconder coisas e até a comida sabe jogar em lugares onde acha não vou encontrar... Meu ponto alto é sempre quando consigo fazer seu sorriso aflorar. 

Não sabe fazer escolhas... não pergunto mais se ele quer isso ou aquilo...  Ele sempre me repassa a decisão alegremente.   Come bem, de tudo!  Isso é bom. E tem um corpo razoável. Não é gordo. Sobe escadas, não tem dores... Somente seu cérebro tem problema... Diz que sou como a mãe dele e me apresenta como esposa... (sou filha)...  Mostro fotos dos irmãos e ele os reconhece... mas no dia a dia não fala neles, e se lhe perguntarem meu nome... 

Pensei e repensei numa série de possibilidades.  Então, avaliei alguns lares, o que fazem e o custo benefício disso.  

Aqui perto encontrei um lar com pessoas que nos acolheram, deram atenção, mostraram o ambiente e outras pessoas por lá não me pareceram infelizes.  Infeliz pode estar meu pai, nesse momento, sentado sozinho na sala assistindo desenho animado enquanto eu dedilho esse texto entre tantos que preciso fazer no meu trabalho home office. Talvez, lá, estivesse conversando sobre o desenho da tv, ouvindo passarinhos, tendo a atenção dos cuidadores e enfermagem... 

Levei para conhecer o lar escolhido e ele não se incomodou... ao contrário, achou bonito, conversou muito... fez contato com a enfermeira do dia.  Muito simpático, não tem idéia do que acontece.  Há muito parou de ter lapsos onde critica o próprio estado... O último foi há uns seis meses, minha mãe ainda vivia ... chorou, disse algo sobre como ele poderia estar daquele jeito, naquele estado???  E nunca mais o vi analisar o fato... 

Não é o ideal deixá-lo num jardim de infância enquanto termino o que acredito que tenha que fazer da minha vida... não é o ideal, mas também não é abandono. É cuidar de forma a não me descuidar, na tentativa de resguardar minha mente para o futuro.  



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